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De reclames e remédios (22/07/2010)

  Jaime Bibas*
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Assisto na televisão o anúncio de um produto que promete acabar de maneira rápida com as "dores musculares". Lembrei então do emplastro SABIÁ, tão antigo que minha avó, nascida no final do século 19 e falecida aos 84 anos de idade já o conhecia. O poderoso medicamento servia para quase tudo, desde entorses e torcicolos, passando por costela trincada ou peito aberto.

A indústria farmacêutica já teve uma grande participação na propaganda brasileira. Antigos "reclames" que o dicionário diz também significar os apelos à publicidade, através de anúncios, prospectos e afins, eram publicados principalmente em Almanaques, como o Capivarol, distribuído gratuitamente nas farmácias. Textos antológicos como, por exemplo: PARA OS CABELOS BRANCOS, USE LOÇÃO BRILHANTE foram repetidos por décadas e o mote da psicologia iniciava a aparecer: VINTE, TRINTA, QUARENTA PRIMAVERAS... SEMPRE CONQUISTANDO CORAÇÕES GRAÇAS AO CREME RUGOL. Comentava-se sobre o tal "sorriso colgate" que virou marca das pessoas com os dentes muito brancos. Outro reclame muito conhecido, um autêntico poema escrito para o Rum Creosotado: VEJA ILUSTRE PASSAGEIRO, O BELO TIPO FACEIRO QUE O SENHOR TEM AO SEU LADO. E, NO ENTANTO ACREDITE: QUASE MORREU DE BRONQUITE. SALVOU-O O RUM CREOSOTADO.

A expressão "santo remédio", usada para as fórmulas de maior sucesso onde cada inventor, tratava de perpetuar, nas embalagens, seu próprio nome, criaram, por exemplo, o Regulador Xavier: número 1, excesso; número 2, escassez. Medicamentos de nomes no mínimo curiosos, desfilavam junto com o óleo creosoto, obtido da destilação do alcatrão, tais como: Xarope de Limão Bravo, Salicilato de Bismuto, Pílulas de Vida, Água de Santa Luzia, Neuratol, Elixir Paregórico, Lavolho, Linimento de Sloan, Phytina...

Bem comum também, a prática de colocar figuras nos rótulos dos remédios. Assim, através de personagens se passava credibilidade e confiança. Desses, o que para mim, reinou imbatível e soberano, foi o que carregava um peixe enorme às costas, o homem da Emulsão de Scott. O fortificante feito a base de "fígado de bacalhau", martírio ingerido compulsoriamente, porém necessário, hoje é lembrança de um tempo em que não se discutia sobre o bacalhau ser um peixe ou um processo. Em que o símbolo de riqueza não era ter um BMW e sim, fumar charutos, vestir-se como um lorde inglês a exemplo do quadro que eu via pendurado numa parede da Casa Aurora. De um lado, um magricela esfarrapado decadente, no meio de uma sala vazia, lamentava ao dizer: EU VENDI FIADO. Em outra cena um homem sorridente, junto a um cofre abarrotado dizia: EU VENDI A DINHEIRO.

Tempo em que se cuidava do corpo de forma generalizada, sem fracioná-lo pela centena de especialidades atuais da medicina. Mas essa é outra história.

 

* Jaime Bibas é arquiteto desde 1969. Passeia por entre as artes visuais, música e literatura, enquanto observa as paisagens urbanas acumuladas ao longo do tempo, como um dos cronistas no belemdopará.

 

Nota média: 10

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Últimos comentários:

Renato Condurú

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Nota: 10

Bibas sempre tratas de coisas inusitadas, e como sempre gostosas de ler. Faltou a tal tinta branca, que passávamos nos congas para ficarem tinindos de novos. Não é medicamento mas era um santo remédio pro bolso, pois gerava uma economia danada. E mudando de pau pra cacete, estou esperando a crônica que trata de um arisco ponta.

Em 09/08/2010 15:28

   Resposta de Jaime Bibas, em 09/08/2010 20:12

Fala Renato! Esse eu lembro, o poderoso 'alvaiade', que também era o apelido do sambista carioca Oswaldo dos Santos, autor de "O que vier eu traço", gravado por Ademilde Fonseca. Essa história do 'arisco'ponta virou uma lenda urbana, disseminada pelo JMLP, hehehe. Um dia ainda escrevo sobre isso. Obrigado pela visita.

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