Cinema do outro mundo (06/09/2010)
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Pedro Veriano* | |
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Vendo "Nosso Lar", o filme do livro de Chico Xavier, ou melhor, do médico morto André Luiz através do médium mineiro, lembrei de tantos que vislumbraram para onde a gente vai quando bater as botas. De memória: "Que Espere o Céu" (e sua refilmagem "O Céu Pode Esperar"), "Neste Mundo e no Outro", "Amor Além da Vida", "O Pássaro Azul", "Um Visto Para o Céu" e até mesmo o nacional "Caídos do Céu" (onde em ritmo de samba se pede a São Pedro que abra a porta do Paraíso para um bloco de carnaval). Isto quer dizer que o cinema já é familiarizado com o outro mundo. Infelizmente, o hábito não fez o monge. Meus amigos espíritas podem ter gostado por causa do livro original. Mas em termos de realização cinematográfica, reprisa-se o amadorismo que se viu em outra abordagem na crença de Kardec: "Bezerra de Menezes".
O "umbral", ou a primeira impressão da alma de André depois de deixar o corpo, é aquele purgatório de outras crenças que Dante vislumbrou na sua "Divina Comédia". Para os kardecistas não existe inferno, mas a amostragem das almas no lodo, sendo chicoteadas, é bem alusão medieval. Por sinal de Vincent Ward, artista plástico e cineasta australiano, viu da mesma forma o outro mundo de Robin Williams em "Amor Além da Vida".
Mas o que arranha a comédia é o céu ou o lar do titulo. Há uma sala onde cada alma tem o seu laptop. Pela cidade circulam ônibus voadores. A arquitetura dos prédios, depois de se galgar um muro semelhante aos fortes dos norte-americanos do gênero western, é do tipo que se vê em "science-fiction" desde que William Cameron Menzies fez o seu anacrônico "Daqui a Cem Anos" (Things to Come/1936).
E há coisas de melodrama mexicano: quando o espírito do médico ganha licença de ver seus familiares vivos ele depara com um verdadeiro quadro onde todos se enfileiram como se o esperassem em pose.
Deslizes são compreensivos, mas no filme todo atores se comportam como nas peças amadoras e não se explica, por exemplo, como os judeus vitimas do holocausto chegam ao outro mundo em romaria enquanto os outros ganham cobertura se gente do "lar". Por sinal que não se diz se aquele paraíso é nacional ou internacional. Um mestre repete o Evangelho: "- Na casa de meu Pai há muitas moradas". Pensa-se em outros planetas como se pensa em outra dimensão. Nada disso aflora da linha de fantasia optada pelo diretor Wagner Assis.
Eu tenho um meio de "diagnosticar" filme chato: olhar para o relógio. Neste caso eu olhei. Que me perdoem os espíritas amigos, mas o tema merecia mais respeito e mais cinema.
* Pedro Veriano é médico e crítico de cinema |
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