As travessas-avenidas que cortam Belém (22/06/2010)
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Sérgio Buarque de Gusmão* | |
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Uma antiga explicação das denominações de vias públicas era que as avenidas são as artérias compridas e largas, cortadas pelas ruas, e estas cruzadas pelas travessas. Os corredores de comunicação entre umas e outras são as passagens ou becos, que poderiam levar o verniz literário de sem saída. Belém desmoraliza essas explicações - a começar da extensão das travessas. É divertido ler no jornal: "Travessa José Bonifácio". Como? Uma ruazona daquelas em qualquer lugar seria considerada avenida. Mas também grandes vias do Marco - Chaco, Mauriti, Vileta, etc. - são todas travessas. A Assis de Vasconcelos, quase um bulevar dividido pelas mangueiras, é travessa. Assim como a Quintino Bocaiúva, Ó de Almeida e Domingos Marreiros. A explicação mais remota que colhi foi a de Domingos Antônio Raiol, em seu magnífico livro Motins Políticos: "Chamavam e ainda hoje chamam no Pará travessa à toda rua que corta as paralelas ao Guajará à cuja margem direita assenta a cidade de Belém" (Tipografia Hamburguesa do Lobão, 1884, vol. IV, p. 202). Raiol falava da Tv. de São Mateus, hoje Padre Eutíquio, e como se vê o barão de Guajará achava que a massa de água de onde saiu o título que recebeu de dom Pedro II era um rio e não uma baía.
No rol de enigmas da nomenclatura oficial, a Caripunas é rua, a Castelo Branco é travessa, a Três de Maio e a Nove de Janeiro são passagens e a Quatorze de Abril é vila. Em contrapartida, aquela nesga de paralelepípedos em frente ao teatro é chamada de Rua e mesmo de Avenida da Paz. Temos o costume distintivo de chamar artérias que atravessam a cidade de travessa, ao lado da menor avenida do mundo que nada mais é que o final da Rua Carlos Gomes que atravessa a Praça da República.
Não é menos característico de Belém a profusão de vias que levam a classificação peculiar de passagem. Parecem ser centenas, e de importância cartográfica respeitável. Os contornos do bairro do Guamá, conforme descrição na Wikipedia, são quase todos dados por elas. Um trecho: "...poligonal que tem início na interseção da margem direita do Rio Guamá com a projeção da Pass. São Cristovão, segue por esta até a Pass. Alvino, flete à esquerda e segue por esta até a Trav. 14 de Abril, flete à direita e segue por esta até a Pass. Paulo Cícero, flete à esquerda e segue por esta até a Pass AIbi Miranda, flete à direita e segue por esta até a Pass. Mucajás."
Belém tem menos vias públicas chamadas ruas do que travessas e passagens.
Oxalá que essas denominações não mudem - assim como se mantenha o costume de dar um endereço dizendo entre que ruas fica o número indicado. Quando cheguei a São Paulo senti falta desta facilitação em uma metrópole que tem avenidas como a intermunicipal Sapopemba, com 45 quilômetros de extensão. No Rio perdurou muito tempo um hábito que se mantém em Belém ao se dar um endereço: simplesmente dizer o nome do prédio. Fui entrevistar o historiador Hélio Silva e, ao perguntar onde deveria encontrá-lo, ouvi: "Edifício Camões." Como sentisse minha incompreensão, explicou mais um pouquinho: "Em Copacabana." Numa de minhas últimas visitas a Belém, pedi um táxi por telefone, dei o endereço completo e a atendente fez questão de localizar: "Edifício Maristela." Por sinal, fica perto de uma via que não tem nome de figurão nem de data histórica, mas conserva antiga invocação a pensamentos, sentimentos, qualidades, estados d'alma ou julgamentos subjetivos que nomeavam ruas no passado: Piedade. No mapa nem travessa é, mas beco. Acho que foi a única que escapou.
A classificação dos logradouros públicos veio quase toda do francês: avenue > avenida, boulevard > bulevar, rue > rua, passage > passagem, allée > aléia. Não pegou no português a deleitosa cul-de-sac, área final de rua sem saída, mais larga, espécie de pracinha. Machado de Assis evitou a palavra ao traduzir Os Trabalhadores do Mar. Vitor Hugo escreveu: "C' était une niche basse en anse de panier, dont les voussures abruptes allaient se rétrécissant jusqu' à l' extrémité de la crypte où le cailloutis de galets et la voûte de roche se rejoignaient, et où finissait le cul-de-sac." Machado traduziu: "Era um nicho baixo, em forma de asa de cesto, cujas curvaturas abruptas iam estreitando-se até a extremidade da cripta onde os seixos e a abóbada se juntavam e fechavam." O Bruxo do Cosme Velho, bairro do Rio onde existe muito cul-de-sac, raptou a palavra de Vitor Hugo.
Rua é galicismo dos primórdios do português, documentada no século XIII, mas avenida entrou no século XVII, e, antes de abrirmos no Brasil estas tais vias largas, a palavra era usada com o sentido de...vila. Assim se lia no Jornal do Brasil de 17/08/1893: "Manuel Ponte Ribeiro, que mora com a amásia Benedita Peçanha numa avenida da Rua de Santana, esfaqueou-a no pescoço ao lhe ser pedido dinheiro para as despesas da casa." A popularização da acepção de via pública larga se deu a partir da inauguração da Avenida Central (hoje Rio Branco), no Rio, em 7 de setembro de 1905, chamada simplesmente Avenida. O autor da grande reforma urbana da então Capital federal, o prefeito Pereira Passos, estudara na França e ali acompanhara a reforma de Paris. Numa visita ao Rio, o prefeito de Belém Antônio Lemos, que também se guiou pelo plano diretor da belle époque, parabenizou seu colega carioca pelas inovações que introduzia na cidade, e ouviu de volta: "Estou fazendo na minha o que senhor fez na sua."
Nesse assunto de ruas, irritante mesmo é a mudança de nome. O aborrecimento pode ser mitigado quando o antigo não homenageia pessoas ou episódios históricos, por mais poéticos que sejam ? como Largo da Pólvora para Praça da República, Rua dos Mercadores para João Alfredo, do Açougue para Gaspar Viana, do Passinho para Campos Sales, dos Inocentes para Riachuelo...Imperdoável é o desrespeito à memória cíclica das conjunturas políticas que refletem uma escolha de época. Isso aconteceu na mudança de Avenida Quinze de Agosto para Presidente Vargas cz? lamentável ainda hoje, por maior que seja minha admiração pelo grande estadista. Difícil de aceitar também foi a troca de Tito Franco, um paraense ilustre, por Almirante Barroso, que só esteve no Pará, em 1836, para reprimir a Cabanagem.
Eduardo Angelim não queria
que os cabanos mudassem
o nome das ruas já em 1835
Curioso é que durante a segunda invasão cabana de Belém, em agosto de 1835, enquanto se mantinha incansável no comando militar do assalto da cidade, à frente de milhares de homens, o líder da Cabanagem Eduardo Angelim arrumou tempo e tino para tratar do assunto. Ao que parece, os cabanos estavam trocando nomes de ruas assim como tentavam mudar o controle da província do Grão-Pará. Belém tinha na época 35 ruas, das quais, segundo Raiol, ?dez eram simples caminhos de raríssimo trânsito por suas más condições; 25 eram adornadas de edifícios, muitos de um pavimento, poucos de dois; mal alinhadas, umas eram grosseiramente empedradas e a maior parte sem calçamento algum. Estas ruas eram cortadas por outras em número de 31, às quais davam o nome de travessas. Havia 12 praças que chamavam largos...? Vale a transcrever a lúcida proclamação de Angelim, datada de 14 de agosto de 1835, reproduzida por Raiol nos Motins Políticos:
"Nestes últimos tempos têm-se mudado os nomes de muitas ruas e praças da capital! Pode ser que haja nisto algum melhoramento público ou mesmo qualquer ato de patriotismo, que não seja possível descortinar; mas por nós declaramos que tal mudança parecem não passar de meras extravagâncias, praticadas em momentos de expressões e entusiasmos pueris sem nenhuma utilidade nem merecimento, sendo entretanto certa a perturbação que o novo e frequente batismo de ruas trará aos arquivos e tradições do Estado em épocas mais ou menos remotas. Há em todas as cidades certos nomes sagrados pelo povo que vê neles verdadeiros símbolos de fatos importantes: recordações vivas do passado, devem ser conservadas como monumentos de sua história. Em Belém há mais de um caso destes. É justo perpetuar os nomes de cidadãos ilustres, assim como as datas gloriosas da vida social de qualquer povo, não contestamos; mas faça-se tudo sem destruir as memórias que os antepassados legam às gerações vindouras como fontes de notícias interessantes dos tempos atuais."
Angelim tinha apenas 21 anos, pouca instrução, mas, por esta e outras, vê-se que era um estadista.
São Paulo, 22 de junho de 2010.
* Sérgio Buarque de Gusmão é jornalista. |
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