Uma vida no ar (31/01/2010)
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Pedro Veriano* | |
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Amor sem Escalas (Up in the Air/EUA, 2009) engana pelo titulo em português. Na verdade trata de uma pessoa solitária que não tem tempo, sequer, de procurar o amor. Ryan Bigham, o personagem que deram para George Clooney interpretar, é um quase sexagenário solteiro que vive viajando de avião pelos EUA, encarregado de despedir funcionários de firmas ligadas de alguma forma ao escritório onde trabalha. Nesse vai e vem aéreo (daí o nome original), ele só encontra afeto, ou melhor, sexo, nas escalas que faz coincidentemente ao lado de uma executiva que também viaja muito (Vera Farmiga). Mas, é um relacionamento unilateral. Mais tarde ele descobre que ela é casada e alimenta romances furtivos como uma aventura. Em tese, Ryan é um solitário. E ilustra muito bem o seu papel quando aporta na cidade onde moram seus familiares para assistir ao casamento de uma irmã. Nessa ocasião ele sabe que o futuro cunhado está disposto a desistir do enlace com medo das responsabilidades que vai adquirir. É ele, Ryan, o mais improvável conselheiro, que vai dissuadir o rapaz. E nessa hora diz que "os momentos felizes da vida são sempre compartilhados". Por certo o que ele sente e esconde.
Interessante observar que o diretor-roteirista Jason Reitman (de Obrigado por Fumar e Juno), deve ter pensado no seu ator. Clooney chegou a ser alvo de uma aposta de colegas (onde se inclui Meryl Streep) que chegaria solteiro aos 60 anos. Ele respondeu blefando: "- Estou chegando lá!". E no filme, não demonstra qualquer sentimento que faça analogia com a figura que vive diante das câmeras.
O filme consegue ser denso e agradável. Boa narrativa, não força a atenção do espectador para o drama do homem que transmite más noticias. Tudo parece muito natural por cima da dramaticidade. Esta dramaticidade só se evidencia quando aparece Anna (Anna Kendrick), uma caloura na missão de despachar funcionários marcados pela atual crise econômica. Inteligente e ambiciosa de melhor posição funcional ela idealiza uma forma de cumprir a tarefa pela Internet, economizando passagens aéreas. A frieza, no entanto, gera tragédia: uma jovem que perde o emprego promete que vai se matar.E acaba cumprindo a promessa.
Up in the Air coube no quadro recente que abalou a economia de gigantes capitalistas como os EUA. Seguiu neste século o que o cinema mostrou nos primeiros anos da década de 1930 quando o americano procurava fugir de outra crise (o crack da bolsa em 1929). A diferença é que antes se tratava a coisa com otimismo (as comédias sociais de Frank Capra). Hoje é um realismo doloroso.
Outro filme da semana também cruza a faixa de uma realidade cruel é O Fim da Escuridão (Edge of Darkness/EUA, Inglaterra, 2009). Focaliza um policial (Mel Gibson), pai de uma moça que trabalha numa empresa ligada a artefatos nucleares, que logo depois de receber a visita da filha a quem não vê a algum tempo, atende a um chamado e nessa hora atiram nela. O policial pensa que a bala seria para ele. Mas a investigação leva a um esquema corrupto ligado à segurança nacional.
O roteiro de William Monahan e Andrew Bovell segue uma série de TV criada por Troy Kennedy-Martin. E não foge dessa origem. Estereótipos diversos jogam a trama para as intrigas de espionagem & ambição desmedida, comuns às séries televisivas. O drama paterno serve à missão de vingança que leva o personagem a aventuras mirabolantes em que ele só se torna vulnerável no final, deixando o recado de que o "tira" vai ter o seu happy end seguindo com a filha no mundo espiritual.
O diretor Martin Campbell fez duas aventuras de James Bond e duas do Zorro (o espanhol, não o do gibi). Nunca foi cineasta de fazer o público pensar. E desta vez, segue carreira. Só escapa mesmo a dedicação do ator, que na qualidade de diretor fez A Paixão de Cristo, uma versão pretensamente realista da via-sacra.
* Pedro Veriano é médico e crítico de cinema |
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