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El Cid (11/10/2009)

  Jaime Bibas*
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Há lugares numa cidade que podem mudar ou sofrer metamorfoses. Outros envelhecem junto ao desgaste de suas ruas e calçadas encarquilhadas. Retornar após algum tempo em certos bairros, é como reencontrar alguém que não se vê há muito tempo, mas deixou vínculos através de histórias contadas, vividas ou simplesmente anotadas na memória.

Porque um dia desses caminhava pela Cidade Velha a procura de certo endereço, parei ao reconhecer um prédio com três arcadas no térreo, de tipologia característica e que poderia ser um daqueles lugares retidos na memória. Lembrei já ter estado ali. Pareceu-me um antigo comércio, quase um bar, meio mercearia, de poucas mesas, cadeiras e estantes em madeira. Um bilhar ao fundo. Terá hoje outra destinação? Estava fechado. Frente ao centenário prédio, onde estive uma única vez, desenfurnei lembranças pretéritas, a partir daquela simples volta ao centro da cidade.

Andei por lá com um personagem de nome incomum conhecido simplesmente como Cid, ou El Cid (como eu o chamava), jornalista que escreveu por tempos, uma coluna no extinto jornal A Província do Par& aacute;, além de manter a sua Informadora Comercial, de onde saíam pequenos boletins mimeografados para distribuição, através de assinaturas, entre firmas comerciais. Dedicou sua vida a essa atividade ligada ao porto e por isso, era comum encontrá-lo pelas ruas do centro a recolher notícias sobre chegadas e partidas de navios, horários, regimes de marés, condição climática e assuntos correlatos.

Acredito que durante o transcurso da vida existem pessoas que apenas passam por nós. Outras sobrevivem à eternidade, em lembranças escondidas nos mesmos compartimentos onde moram os sonhos. El Cid é um desses personagens que não esqueço. Alto, magro, braços compridos – o que lhe dava um ar meio desengonçado – tinha dois esportes por predileção. Uma boa conversa acompanhada de muita cerveja e as mesas de bilhar. Foi na mocidade um exímio jogador de títulos conquistados. Repetia sorrindo que o exercício de circular em volta da mesa, durante uma partida, era suficiente para manter a forma física. Enquanto viveu, foram incontáveis as tacadas que enchiam meus olhos por sua precisão e beleza.

Foi ali uma vez, na Rua Doutor Assis, quando terminávamos um circuito de bares iniciado num final de tarde, que alguém lembrou a sua saga de campeão. O dono do comércio propôs então uma aposta, ao dizer que seu filho era imbatível no bilhar e foi chamar o rapaz. Em melhor de cinco partidas e sem fazer muito esforço, Cid abriu dois a zero de vantagem. Para minha surpresa, jogou depois de forma irreconhecível. Perdeu por três a dois, escore comemorado pelo pai e moradores do bairro que lá bebiam. Na volta para casa, perguntei a razão da derrota, pois pareceu que jogara sem a costumeira concentração. Respondeu:

- Reparaste a cara dos torcedores? Se ganhasse aquele jogo não voltaríamos, depois, a beber com tanta harmonia e nem eu faria o pai do menino, eufórico, deixar as várias saideiras por conta dele. E caiu na gargalhada.

El Cid era meu tio. Figura admirada, de muitos amigos e histórias derramadas generosamente em conversas de bar, que agora fazem parte dos momentos de lembranças, enquanto escrevo nesse mural de memórias acumuladas.

 

* Jaime Bibas é arquiteto desde 1969. Passeia por entre as artes visuais, música e literatura, enquanto observa as paisagens urbanas acumuladas ao longo do tempo, como um dos cronistas no belemdopará.

 

Nota média: 10

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Últimos comentários:

José Pedro Bastos Cavalléro

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Nota: 10

Égua meu parceiro! Esse El Cid deve ter trocentas "estórias" nesse seu alforge.rsrs Muito legal!

Em 14/10/2009 00:05


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