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Bembelelém, Viva Belém! (11/12/2009)

  Sérgio Buarque de Gusmão*
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Quinze anos de ausência e, no meio do ano, voltei a Belém. Não fiz observações dignas de um Milton Santos, mas é visível que os problemas sociais se agravaram. Apesar de rejeitar a nostalgia, detive-me nas minúcias do cotejo, não com a cidade que vira há três lustros, mas com a da infância e a de 1968 a 1972, em que voltei de Capanema para morar no Guamá. A população era menos da metade da atual. Nada muda tanto, ao menos no Brasil, quanto as cidades. Parecem aquela comparação de Magalhães Pinto entre a política e a nuvem: você olha, está de um jeito; olha de novo, está de outro... Muitos bairros novos, pobres, sofridos, mal-ajambrados, vai ser difícil consertar, ordenar um zoneamento moderno, mas o povo se vira como pode. De qualquer forma, a minha Belém vai at p;eacute; São Brás, e, nos dias de jogo do Papão, até a Curuzu. Por sinal, quando estive aí, levei meu pé incandescente ao Mangueirão: 6 a 1 no São Raimundo e, a seguir, campeão de alguma coisa.

Algumas coisas não mudam, como o nome do time (Paysandu Sport Club...), conservado em formol lexical pelas viúvas da antigua ortographia. Outras foram modificadas para ficar como estavam, a exemplo do Ver-o-peso, de que falo depois. E há as que murcharam, como a Presidente Vargas, que definitivamente perdeu o viço tropical. Não encontrei um só bar para manter acesa a chama boêmia do Café Central, do restaurante popular que havia na esquina da Gaspar Viana (um ambiente literário digno de Balzac), de duas tavernas animadas que ficavam onde hoje está o INSS...O máximo que vi foi uma padaria hostil, Tivoli ou coisa parecida, perto da Riachuelo. Nada parecido à fidalguia dos velhos cafés do centro.

Não vou falar dos cinemas que hoje passam filmes de Billy Graham. Nem das magras bancas de jornal que antes vendiam, e já não vendem, ?jornais do Sul?, o que me deu um sinal de empobrecimento cultural (mais adiante, no entanto, na galeria da Assembleia, tem uma lan house...). O Bar do Parque me pareceu um quiosque turco, de onde veio a palavra. Não tive o infortúnio de ver a avenida palmilhada de camelôs, mas os vi, aos magotes, hunos do espaço público, na Treze de Maio e João Alfredo, e lembrei-me de meu amigo Davi Capistrano, prefeito comunista de Santos, que retomou o centro desta importante cidade paulista como se travasse uma cruzada civilizatória contra os bárbaros, e dizia: ?Fora: a calçada é do povo.? Em uma travessa do mercado existe até uma barraca de alvenaria, a demonstrar que nem tudo que é sólido desmancha no rapa.

A comida de rua, tradição dos escravos de ganho, ainda é fascinante, a mostrar que fast food não é uma invenção do McDonald´s. Na Manuel Barata, perto da Presidente Vargas, onde costumava sentar numa banca de tacacá, perdi-me numas seis, espremidas entre tendas de mochilas, relógios e até uma papelaria e copiadora. Pedi uma maniçoba e me espantei quando a ?comadre? adornou o prato com jambu e camarão...Pedi que tirasse os dois intrusos, mas sei muito bem que esses ecletismos culinários são um disparate incontrolável: em São Paulo a fusion cuisine, que nos deprava o idioma e o paladar, serve sushi com chile. Deveriam inventar pratos novos, em vez de conspurcar os antigos. No melhor restaurante da cidade, o italiano Fasano, cria-se muito, mas não se põe queijo ralado na massa com frutos do mar. Vem-me o pesadelo da tragédia final: botaram maionese no meu tacacá.

Enfim conheci a Estação das Docas, o Mangal das Garças e a revitalização do berço histórico que Almir Gabriel e Paulo Chaves Fernandes operaram com abuso de poder criativo. O Aterro do Flamengo, a restauração da área portuária de Nova York, a pirâmide do Louvre sofreram as mesmas incompreensões. Daí que só abusando do poder de vencer as resistências da demagogia reducionista o governante pode ir além do tapa-buraco. Pensei nisso numa tarde em que contemplava os galpões de ferro inglês, antes condenados à ruína como o Forte de São Pedro Nolasco, e me lembrei de um verso de Paul Valery: ?Le pouvoir sans abus perd le charme?, ?O poder sem abuso perde o encanto.? São equipamentos que distinguem a cidade, proporcionam lazer à população, incentivam o turismo, ajudam os negócios. Mas dói a redundância rastaquera do endereço: Avenida Boulevard...Ou uma ou outro...

Em alguns lugares e situações, me achei como a personagem Trifúlcio, do romance Conversa na Catedral, de Vargas Llosa, que na volta à cidade natal sentiu-se como se a conhecesse sem nunca ter estado lá. Ou o contrário. Não vivi a Belém da bolha da borracha e do urbanismo afrancesado do prefeito Antônio Lemos, que tanto encantou Euclides da Cunha: ?Não se imagina no resto do Brasil o que é a cidade de Belém, com os seus edifícios desmesurados, as suas praças incomparáveis e com a sua gente de hábitos europeus, cavalheira e generosa.? Quando volto, o esforço é fugir da nostalgia de um recorte elitista (?hábitos europeus?) que ignora a cabocada. Não há tempo melhor que o presente, apesar da incontrolável vocação de nos consolarmos com o passado e nos esperançarmos no futuro.

A conexão mais grata está no Ver-o-peso, testemunho da Belém antiga, profunda, sobretudo a parte das docas, as feiras do açaí e a de frutas e hortaliças e os mercados. Como são abençoados os da terra, que compram tudo fresco e a preços que aqui parecem subsidiados. Pescada-amarela por R$ 9 o quilo, e a retalho, quando em São Paulo se encontra por R$ 35 e se tem de levar o peixe inteiro. É enorme a perda cultural e gastronômica do desaparecimento do charque de manta, da linguiça portuguesa de Soure e Bragança, e da substituição da folha de mandioca pela de macaxeira, mas disso falo outro dia. Levei mais tempo na prosa que nas compras, papeando com as mulheres das ervas, os moedores de folha, os vendedores de camarão e farinha, sempre dispostos a resolver qualquer problema do cliente. Nunca soube de um povo tão safo. Um exemplo incomparável era o do vendedor de cachorro-quente do Pernambucano pôr o refrigerante num saco plástico, enfiar um canudinho e amarrar para o deleite do cliente. Isto, na rua. Mas... no supermercado? Na Casa Chama, vi uma mulher comprar um refrigerante sem levar o casco: a caixa derramou o líquido no saquinho, deu um nó e entregou a embalagem à freguesa.

Bembelelém de Manuel Bandeira ainda existe e resiste na grandeza do povo. Volto no fim do ano e, de novo, Belém, como no poema, ?me obrigarás a novas saudades.?

 

* Sérgio Buarque de Gusmão é jornalista.

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